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Cenário Econômico 2012-2016: Paradoxos, riscos e incertezas

Postado em 1 set, 2012 em Blog

CENÁRIO ECONÔMICO 2012-2016: PARADOXOS, RISCOS E INCERTEZAS

José Paschoal Rossetti

Professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral

A economia mundial está atravessando um período – que provavelmente será longo – de paradoxos, riscos e incertezas. Mas, em contrapartida, as dimensões do Produto Mundial Bruto (US$ 67,7 trilhões estimados para 2011) não têm precedentes históricos. Caso o crescimento de 2012 alcance a taxa de 3,3%, como projeta o Global Economic Outlook (Quadro 1) a expansão absoluta será de US$ 2,2 trilhões, o que equivale a um Brasil a mais, em PNB, em apenas um ano. E se a taxa de 3,6% ao ano do cenário base dos próximos cinco anos (2012-16) realmente ocorrer, o crescimento mundial absoluto será de US$ 13,2 trilhões – o que equivale a uma adição correspondente à soma dos PNBs dos países da zona do euro.

Condições alentadoras

Esses números são a um só tempo alentadores e preocupantes. Alentam por indicarem que a economia global jamais alcançou escalas tão expressivas e visíveis. Uma das mais notáveis conquistas humanas, claramente observada desde a virada para o século XXI, é a formação de uma gigantesca economia de massas, movida por emergências ascendentes – nações, empresas e classes sócio-econômicas, em histórica co-evolução.

Vale olhar para números de 2010, comparados com os de 2000 (Quadro 2). Das 25 maiores economias nacionais, pelo critério paridade de poder de compra, as de países emergentes, chegaram a 15 na virada para o século XXI, contra apenas 10 de países avançados, mantendo esse número no final da primeira década. Mas sua expressão em relação à dos países avançados, dentro do bloco das 25 maiores aumentou de 40,48% para 46,97%. Isto, obviamente, em decorrência de taxas anuais de crescimento de seus PNBs bem mais expressivas: enquanto os países avançados cresceram nos dez primeiros anos deste século 4,01% ao ano, os dos emergentes avançaram 6,79%, traduzindo-se em variações acumuladas bem distintas, respectivamente de 48,16% e de 92,73%.

No universo das 500 maiores empresas do mundo os resultados não foram diferentes, quanto à expressão das empresas de países emergentes, relativamente às de países avançados (Quadro 3). O número total das de países avançados era 468 em 2000, contra 32 de países emergentes. Em 2010, o número das de países avançados recuou para 401 e as dos emergentes chegou a 99. O mesmo ocorreu com as companhias abertas listadas nas bolsas de valores do mundo. Em 2010, das 45.950 companhias abertas listadas, as de países emergentes da Europa do Leste, da Ásia e da África totalizaram 23.860, ou 51,9%. Dez anos antes não chegavam a 9.000, menos de um terço das 29.300 (Quadro 4).

Confirmando o avanço das emergências ascendentes, observa-se hoje em praticamente todos os países emergentes as presenças massivas das classes sócio-econômicas de baixa e de média-baixa renda nos mercados de produtos básicos, além de ondas crescentes de acesso a vastas categorias de bens duráveis, antes exclusivas do topo da pirâmide de rendimentos.

Na realidade são as nações, as empresas e as classes sócio-econômicas emergentes que tracionam a economia global: evoluíram para a posição de rebocadoras. Não se estranhe, portanto, a projeção da Global Economic Outlook de ultrapassem dos países avançados pelos emergentes, nos primeiros anos da próxima década.

Condições que preocupam

Mas os números que alentam também preocupam. A ruptura do ciclo de emergências ascendentes poderá desaguar em processo recessivo profundo, de conseqüências imprevisíveis e sem precedentes – uma hipótese não descartável, dada a exposição deste ciclo a um conjunto de pares paradoxais. O primeiro é a ameaça de recessão prolongada nas economias avançadas, que ainda têm alto peso na geração do Produto Mundial Bruto, frente aos consistentes potenciais de expansão das economias emergentes. O segundo é a expansão econômica e das escalas globais de produção, necessariamente fundamentada na transformação do capital natural do planeta, frente às barreiras e dificuldades crescentes de acesso a esses ativos, em resposta a movimentos preservacionistas. Além destes dois, há outros três pares paradoxais sintetizados no Quadro 5. E todos os cinco acarretam incertezas e riscos, que podem levar a turbulências e a volatilidades prejudiciais ao bom desempenho da economia mundial.

Estas realidades somaram-se às práticas agressivas de geração de ativos derivativos e de engenharia financeira nos mercados dos países avançados (insuficientemente regulados) e desaguaram na crise econômica mundial que eclodiu em 2008, levando à variação negativa do Produto Mundial Bruto em 2009, pela primeira vez após a Grande Depressão dos anos 30. Em 2010, houve recuperação parcial. Mas em 2011, ainda que positivo, o crescimento ficou abaixo do esperado, evidenciando um quadro típico de volatilidade, agravado por turbulências localizadas, de raízes religiosas, políticas e étnicas. Um cenário que remete à listagem aos pares paradoxais e que é coerente com a persistência da crise, exposta no Quadro 6. Notoriamente, neste início de 2012, o cenário econômico dos países avançados da Zona do Euro e dos Estados Unidos é marcado por vários sinais de desconforto. Nos Estados Unidos, o crescimento projetado é baixo (inferior à média da última década) e não será fácil revertê-lo, dado relevante conjunto de dificuldades estruturais de complexa remoção. Na Zona do Euro, poderá ocorrer “estagnação absoluta”, em 2012: crescimento zero, justificado pelo “equilíbrio” entre os esforços para superar a crise e os pontos frágeis dos países mais atingidos.

Os impactos no Brasil

O Brasil, como todos os emergentes, é afetado pelas condições mundiais descritas. O Quadro 7 sintetiza a exposição do país às incertezas e aos riscos globais. Os dois de maior impacto são o agravamento da crise na Zona do Euro e a redução prolongada do vigor dos Estados Unidos. Tanto um risco quanto outro não podem ser desconsiderados, dadas as condições que os justificam. Ao quadro externo somam-se incertezas e riscos internos. Dos sete que listamos, destacamos os três que nos parecem de maior impacto: 1. A difícil conciliação de três objetivos macroeconômicos – o crescimento, a estabilidade e a desconcentração de renda movida por políticas assistencialistas; 2. a reversão do processo de expansão do emprego; e 3. a dependência de movimentos de capital para cobertura do déficit crônico da balança de transações correntes.

Ainda bem que, em contrapartida, tanto as incertezas e riscos globais quanto os internos têm um bom conjunto de atenuantes (Quadro 8). No mundo, mobilizam-se cúpulas multilaterais em busca de soluções emergenciais e estruturantes. As respostas às medidas adotadas têm sido positivas, à medida que evitaram o desmoronamento do sistema financeiro mundial e mantiveram em funcionamento as cadeias produtivas do setor real. Nos Estados Unidos, há sinais de recuperação, ainda que anêmicos, suportados não só por políticas monetárias e fiscais expansionistas, como pelo dinamismo e para cultura nacional de inovação. Na Zona do Euro os esforços para manter a união monetária e a diversidade da situação econômica dos países que a integram têm conseguido bloquear a tendência à maior severidade da recessão. Já no Brasil, os atenuantes são os espaços existentes para redução dos juros, o nível historicamente inusitado de reservas cambiais acumuladas, a qualificação da pauta de exportações, a atratividade comparativa do país em relação à de outros emergentes, os potenciais de expansão do mercado interno e a segurança operacional do sistema financeiro.

Em síntese: se de um lado os paradoxos e as incertezas globais são atemorizantes, de outro lado, observam-se condições reais que têm mantido sob controle os riscos decorrentes.

É este balanço que justifica as projeções de crescimento mundial de médio prazo, para o período 2012-2016: no mundo de 3,6%; no Brasil, de 4,5%, ambas em “cenário base”. Em cenário otimista, as projeções apontam respectivamente para 4,8% e 5,5%. Em cenário pessimista, os números não chegam a ser de depressão profunda, mas recuam significativamente, para 2,3% e 3,0%. Em todos os cenários, porém, tanto lá fora quanto aqui, os números esperados são inferiores aos níveis médios alcançados na primeira década do século. O ano de 2012 e a média dos que completarão esta segunda década poderão não ter o mesmo brilho do “miolo” da primeira década: o notável qüinqüênio de 2003 a 2007. Um período de exuberância que o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, definia, com razão, como “irracional”, embora sua gestão tenha sido complacente com operações de alto risco praticadas no sistema financeiro dos Estados Unidos – raízes inquestionáveis da crise que eclodiu em 2008.

Resta, enfim, deste complexo conjunto de causas e efeitos dois aprendizados históricos:

  1. As irracionalidades, em economia, cedo ou tarde, custam muito caro quando não corrigidas a tempo.
  1. O ônus pela insistência em mantê-las é seguramente bem superior aos ilusórios ganhos de curto prazo em postergar correções mais severas, que geralmente implicam reações ruidosas dos que delas acreditam possam se beneficiar perpetuamente.

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